Ah, o Futebol

O danado do futebol é bicho dos mais traiçoeiros. Todas as vezes que se tenta enquadrá-lo numa teoria pré-estabelecida, o referido ginga, dá um drible sensacional e pimba: joga o idiota para o escanteio - principalmente idiotas da minha baixa estirpe e tão alta presunção.

Mas, não adianta. Tal e qual mulé ruim, quanto mais sou maltratado pelas artimanhas do ludopédio, mais gosto. E, mesmo ciente de seus impenetráveis mistérios, insisto em decifrá-lo e em enfrentá-lo. E sempre me lasco nesta luta desigual.

Ontem, por exemplo, mesmo sabendo que provavelmente os acontecimentos nas quatros linhas podiam me desmentir, preparei minha garganta para fazer mais um inflamado discurso contra a Seleção Brasileira, esculhambando-a mais do que ela já merece.

Porém, nem pensem que seriam estes xingamentozinhos de torcedores iletrados. Nécaras. A idéia era dar um estofo político-literário às minhas queixas. Assim, dentro desta estratégia, pensei em emular a sociologia futebolística de Mário Filho, adaptando-a para a análise da peleja de ontem à noite entre Brasil X Portugal. Como mote, o Dia da Consciência Negra, que é comemorado hoje.

Tava tudo pronto e encadernado. Era somente esperar o árbitro dar o apito final para publicar nesta intimorata emissora os seguintes queixumes: “Eu já sabia que esta partida ia ser uma porcaria. Aliás, este negócio de jogo de seleção é igual a doce: só quem aprecia é menino, mulher, xibungo e formiga. Ademais, não tinha como dar certo uma peleja que tem como destaques dois meninos amarelos criados em playground: Kaká e Cristiano. É por estas e outras que, mesmo não sendo palhaço das perdidas ilusões, sinto saudade do tempo em que as duas equipes eram representadas por Pelé e Eusébio. Mas, fazer o quê? Este jogo sem graça de ontem é apenas reflexo do embranquecimento do futebol e blá, blá, blá”.

Mas, não é que o diabo do futebol, que nunca leva desaforos pra casa, aprontou mais uma. E o tal do jogo de ontem, que tinha tudo para ser pachorrento e insosso, transformou-se num espetáculo decente, como há muito a seleção não propiciava. E eu tive que guardar meu pessimista e ridículo pronunciamento para outra oportunidade. 

É óbvio que, em minha incurável modéstia, acho que o que aconteceu no Bezerrão, em Brasília, foi apenas uma forma que o balipódio encontrou para se vingar de minha teoria.  No entanto, não me dou por vencido. Continuarei profetizando. E amaldiçoando a Seleção, especialmente para que ela volte a jogar como ontem à noite.

Para encerrar esta transmissão, eis um gol de placa do menino Cau Gomez na edição de hoje do Jornal A Tarde

Confissões Velhuscas (Cap. 3º)

Meu irrevogável afeto por los olvidados e ofendidos pelas grandezas do Brasil estende-se também à geografia – mais precisamente aos bairros e adjacências desta besta e bela província. Tem sido assim desde tempos imemoriais e assim continuará ad infinitum, amém. Lembro-me que derna de quando aqui aportei, e lá se vão alguns séculos, sempre fui simpático às localidades, digamos, desprestigiadas.

 

Dentro desta estratégia, minha primeira parada em Soterópolis foi logo na briosa Rua da Poeira, na Saúde, exatamente na divisa com o bairro de Nazaré. Recordo que os moradores de tão distinto e limpo logradouro tinham uma quase vergonha de falar que moravam lá. E, sinceramente, não entendia o motivo, já que a Saúde era (e é) muito mais simpática do que Nazaré.

 

Pois bem. Tempos depois, descambei para outra morada de entorno, o glorioso o Engenho Velho de Brotas. Apesar de ser uma espécie de apêndice do insosso bairro de Brotas, não há nem discussão de que aquele é muito mais bacana do que este. É óbvio que não é preciso muito esforço para que uma localidade, mesmo periférica, seja mais atraente do que Brotas.

 

 

O fato, porém, é que tomei gosto pelas tais sub-localidades. E esta atração fatal não parou mais. Atualmente, por exemplo, cheguei ao ápice do desprestígio, pois escolhi a gloriosa Amaralina, que fica espremida entre a futilidade do Rio Vermelho e o novo-riquismo da Pituba. (Mas, lá no alto do morro, onde Amaralina roça com o Nordeste, sou um burocrata quase feliz). 

 

De todas estas localidades secundárias, a única que me parecia em desvantagem em relação a principal era a Barroquinha. Mas, confesso que nunca soube explicar os porquês de tal fato. Talvez existisse algum óbice, vá lá, cultural - pois enquanto a Baixa dos Sapateiros atraiu Ary Barroso para imortalizar suas morenas frajolas, a Barroquinha comparecia com Joãozinho do Arrocha e sua nigrinha.

 

Inobstante (recebam, sacanas, um inobstante pelas caixas de catarro) este problema musical, continuei perseverando. Eu sabia que um dia a argumentação pró-barroquinha ia aparecer. E apareceu. Semana passada estava lendo um relato de Rafael Galvão sobre a aprazível e degradada localidade quando se fez um estalo a la Vieira :”A Barroquinha é a resistência e a vanguarda ao mesmo tempo”, pensei com meus desgastados botões e me preparei para mais um momento ingresia de falsa erudição.

 

Seguinte é este.

 

A gloriosa Igreja da Barroquinha, que começou a ser construída no início do século XVIII, mais precisamente em 1722, está agora se transformando em um Centro Cultural. Não tenho a informação precisa, mas creio que talvez esta transformação de igreja em centro cultural seja única  em Salvador. Aqui e alhures sempre tem prevalecido o inverso. Os religiosos, mais especificamente os da zuadenta Igreja Universal, têm ocupado os espaços de cultura, especialmente nossos cinema de rua (não, não chore Setaro), para gritar e berrar em nome do senhor   

Pois muito bem. Continuando na história da resistência e vanguarda na velha Barroca, lembrei-me que atrás da referida Igreja da Barroquinha, conforme ensina o menino Renato da Silveira, existiu o primeiro terreiro de candomblé da Bahia, comandado pela mãe-de-santo alforriada Iyá Adetá. O referido culto negro, que começou no ano da graça de 1807, foi obrigado a abandonar a Barroquinha por causa dos brancos endinheirados, porém espalhou-se pela cidade e acabou sendo o precursor de terreiros importantes como o Gantois e Casa Branca.

Então, é isso. Vamos, agora, torcer para que este exemplo da Barroquinha, que transforma igreja em butecos e similares, se espalhe pela cidade, assim como ocorreu com os terreiros. 

 

Oremos.  

 

Confissões velhuscas (2º Cap.)

Apesar de saber que o assunto interessa a quase ninguém (ou talvez por isso mesmo), informo que fui professor de informática em meados da década de 80 do século passado. Naquela época, computador era coisa séria – tão séria e complicada, que era mais fácil encontrar um instrutor de javanês  do que de processamento de dados (eis o nome oficial de antanho). Nada a ver, portanto, com esta chibança de hoje em dia, quando qualquer menino buchudo fica malinando no referido maquinário. A bem da verdade, naquele tempo, minino pequeno não mexia em nada, sob pena de levar uns safanões. Aliás, os guris não possuíam direito algum, nem mesmo o de entrar, sem ser chamado, em um texto deste porte. Chispa, rebain de miséra.

Pois bem. Se, na ocasião, o entendimento do tema já era algo tão obscuro, complicava-se mais ainda quando este politizado locutor assumia a cátedra. Era um rebuliço dos seiscentos. As senhoras que se dirigiam ao glorioso Centro de Informática de Salvador (CIS), no não menos glorioso bairro do Politeama, para assistir às aulas de Fortran, Cobol, Pascal e outras mumunhas, ganhavam de bônus elucubrações sócio-político-econômicas e culturais.

Lembro-me que um dia, ao invés de ensinar as manhas da programação computadorística, ocupei o tempo das referidas senhoras falando sobre A paixão segundo a revolução, livreco de Paulo Leminski recém-lançado. A platéia, não sem razão, estrilou. Afinal, todos estavam ali para “se profissionalizar, se qualificar para o mercado”. Porra de Paulo Leminski.

Apenas uma saiu em minha defesa. Mas, logo nas primeiras palavras ficou óbvio que ela também não estava interessada em literatura ou revoluções. Porra de Paulo Leminski. Ela queria apenas era agradar ao professor para, talvez, ganhar uma boa nota. E falava bobagens com a profundidade de uma leitora de Lya Luft. Assim, entre a futilidade desta que me defendia e o bitolamento das demais, decidi ficar com estas últimas. Naquele instante, aprendi que aqueles que, açodadamente, mais querem se aproximar de você, são os que na verdade estão mais distantes.
E nunca mais tratei de algo que não se resumisse estritamente aos conteúdos das matérias de informática.

 

Agora, segurem-se nas poltronas que vou dar um salto de mais de uma década.

Pois muito bem. No final dos anos 90, mesmo contrariando minha religião, que não aconselha o comparecimento a noite de autógrafos, descambei para o insalubre Centro Histórico de Salvador para o lançamento do livro Vale a pena sonhar, de Apolônio de Carvalho. É óbvio que, nesta época, eu já sabia que não valia mais a  pena sonhar (não os sonhos ali relatados), mas eu gostava muito do personagem e autor da obra. E fui. 

Não bastasse ter que desembolsar 25 real, ainda tive que enfrentar uma fila do cabrunco e umas conversas chatas da porra. Porém, disciplinadamente, tal e qual o filho de Stálin, eu resistia a tudo e a todos. Eu disse resistia, pois perdi completamente a paciência quando uma jovem senhora resolveu se aproximar de Apolônio e de sua companheira Renée France. Perdi a paciência, eu dizia, porque a tal conversava tantas bobagens quanto aquela minha fútil aluna. Provavelmente, também deveria ser fã de Lya Luft, com o agravante de que não respeitava a ordem da fila.
Soube depois que era uma publicitária de esquerda (pfui), organizadora do evento, chamada Vera Rocha. Mas, em verdade vos digo: de todos os que compareceram à Fundação Casa de Jorge Amado naquela noite, ela talvez fosse a pessoa que estava mais longe do pensamento e das ações de Apolônio. E, no entanto, ficou lá encarnando nele boa parte da noite.   

Ao ver o contraste entre os trejeitos da referida e o semblante de Apolônio, novamente confirmei o tal axioma da primeira história. Qual seja. Aqueles que, açodadamente, mais querem se aproximar de você, são os que na verdade estão mais distantes.

Chispa, rebain de miséra.

P.S. Se chegou até aqui é porque você é um desocupado. Então, aproveite seu tempo livre e leia também Confissões Velhuscas (Cap. 1).

Uma data histórica

É fato que, há cerca de três décadas, este pontual locutor havia prometido uma análise abalizada sobre a última eleição na Cidade da Bahia - porém um valor mais alto se alevantou. E, mesmo com toda a minha costumeira rabugice, não poderia nem poderei ignorar este antológico 5 de novembro – data que marcará as gerações  per secula seculorum.  Assim,  diante da magnitude do acontecimento, postergarei a avaliação sobre o pleito de Soterópolis. 

(Hã? Quem? Que mané Barack Obama, o quê, rapaz? )

 

Neste impoluto recinto só tratamos de assuntos sérios. E o que importa é este seguinte. Agora, às 22h43, completam-se exatos três anos, seis meses, dois dias e quatro horas que esta Ingresia fez sua primeira transmissão para toda a Bahia e uma banda de Sergipe. Eis aí a única data histórica que realmente merece respeito neste momento emocional. O resto é divisora de sanitáro publico.

E foi exatamente para não deixar que esta efeméride ingresiástica dos seiscentos caísse no esquecimento que o poeta popular Boca Preta largou a seguinte:

EXTRA, EXTRA 
 
 
Acesse, acesse meu povo
Este site do Ingresia
Um pouco de sacanagem
Um pouco de poesia
Franciel tecendo o verso
Esculhamba no reverso
Deflora a filanlumia
 
Ali a prosa e o xaveco
Fora tomar banho de pia
A prosa comeu o xaveco
Antes do nascer do dia
Quem quiser saber política
E se azucrinar com crítica
Acesse esta Ingresia
 
É tudo HTML
Cuns pé na mudernidade
Atualizado, instantâneo
Causando temeridade
Minha mão tem cinco dedo
Aquele que tem cu tem medo
É lido em toda cidade 
 
 
Sua platéia é muito ampla
Nem fala em público alvo
Acessam os canabistas
Us cabiludo i us calvo
Us di terno e us careta
Até os cara de buceta!
E este link já está salvo!  
 
 
WWW.INGRESIA.OPENSADORSELVAGEM.ORG

 

Ass: Boca Preta

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